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Jun 3, 2006
pig.e.on(s)


Posted at 09:10 pm by rfelipe
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pombos...

Um devir-pombo (em trânsito)

Rogério Felipe

 

           

“So, stop that pigeon
Stop that pigeon
Stop that pigeon
Howwww!”

(Dastardly & Mutley in Their Flying Machine Lyric – Hanna-Barbera Sounds)

 

           

A revoada de pombos no fim da tarde trouxe com seu arrulhar um clima de nostalgia.  Observar a maneira como aquele bando sujo se movimenta por fluxos me fez vagar, em um primeiro momento, por lembranças da velha casa de minha avó paterna. Havia nos fundos dessa casa, no terreiro, um pombal. Foi nesta época que descobri que pombos gostam de alface. Minha avó colocava algumas folhas de alface para alimentar o casal de tartarugas quase centenárias que lá também viviam, mas quem de fato comia eram os pombos. É que eles são muito mais ágeis que as tartarugas.

Pombos estão em todo lugar e nunca sozinhos. Vejo-os sempre em bandos nas praças, e nos telhados das casas, e nos prédios. Ocupação rizomática de territórios, ou melhor, invasão! Pois estas criaturas raramente são desejadas nos locais que escolhem como habitat. Porém há uma espécie de paradoxo, pois algumas pessoas costumam dar alimentos aos pombos, e ao mesmo tempo gostariam de vê-los a léguas de distância dali. Os pombos operam por contágio se alastrando, e procriando, e multiplicando como uma espécie de minoria alegre.

Os pombos possuem seu som de uma musicalidade bastante peculiar. O refrão é sempre marcado por um “uh-hu-rurru”, espécie de ritornelo que se faz presente em pelo menos três momentos do cotidiano destas aves: Quando os pombos criam coragem para abandonar seus territórios; quando abandonam; e quando retornam.

Os territórios pomboados, digo, povoados por pombos, são em geral os grandes centros urbanos. Estátuas e casarões antigos muitas vezes apresentam o rastro de pombos que com suas fezes deixam uma espécie de contribuição para a arquitetura local, uma assinatura. Pois onde há pombos, há sujeira.

Recordo-me de um caso contado por uma tia que em visita a Madri, caminhando por uma das belas praças desta cidade, saiu toda suja de fezes destas aves, logo após ter lançado fatias de pão aos pombos que ali estavam. Ela já me contou esse caso uma dezena de vezes ressaltando sempre que se tratava de centenas de pombos, algo que a faz lembrar, com um sorriso no rosto, de Hitchcock e seu clássico: Os pássaros.

 Uma ave popular, aliás, quem não conhece um Pombo? “Nome comum a todos columbiformes.”(BUENO, 2000, p. 608 – Minidicionário da Língua portuguesa). Trata-se da ordem de aves de bico intumescido na base, de asas arredondadas e tarsos emplumados. São animais cosmopolitas oriundos dos trópicos do “velho mundo” (=Europa). O pombo doméstico ou Columba livia domestica foi introduzido no Brasil por volta do século XVI.

            Certa vez comentei com alguns amigos, que estavam de carona, o que acontece comigo quando estou na direção de um carro. Trata-se de um acontecimento leve e potente, que promove sensações bem diversas... É que o trânsito que é o ato de caminhar; marcha; passagem; tráfego; fluxo de veículos não é de forma alguma meu habitat natural. Sinto-me estrangeiro em minha própria cidade toda vez que estou com o volante nas mãos. Raramente sei o nome das ruas, apesar de confiar em um tipo de noção mágica de direção. Algo como uma espécie de orientação desorientada por rumo(s).  

Acabo chegando aos lugares, porém quase sempre por linhas que não eram as mais indicadas, ou, pelos caminhos menos curtos. Reconheço inclusive, de modo empírico, que um atalho raramente se faz pela distância mais curta. Pelo menos no meu caso. Aliás, quanto aos pombos, também não se sabe ao certo se eles escolhem o caminho mais longo, ou o mais curto, se batem menos ou mais as asas para chegarem a um determinado lugar.

 Sinto-me possuído por esta potência-pombo, pois não se deve nunca perguntar a um pombo o nome de uma rua, de um bairro, de uma cidade, nem mesmo seu próprio nome.

            Estando eu na direção de um veículo automotor o que pouco acontece é de fato direcionamento. Sigo como que por um derivé situacionista. As indicações dos mapas com seus pontos de referência, previamente descritos por aqueles, acredito, que querem que eu chegue a algum lugar, quase nunca condizem com as paisagens com as quais eu me deparo ao longo do percurso. Sinto, desse modo, que dirigir um automóvel é traçar linhas por cartografia.

            A relação que estabeleço com o carro e o pombo, não é de modo algum a de imitar um pombo, ou me transformar em um pombo, nem mesmo de achar que o veículo é de fato um prolongamento de meu corpo, ou do corpo do pombo. Tampouco o carro, ou o pombo se transformam em motorista. É algo mais sutil e transitório, passageiro. É que se trata de mim e do pombo e do carro, sendo que as fronteiras sutis estabelecidas entre os três, estes três territórios, nestes três blocos, mais precisamente no que ocorre entre, já não são mais tão nítidas, tornam-se algo imperceptível, tal qual um devir e “os devires são o mais imperceptível, são atos que só podem estar contidos em uma vida e expressos em um estilo.”(DELEUZE;PARNET, 1998, p.11 - Diálogos). Quem sabe não seria o estilo motorista-pombo-carro de se locomover, como que por linhas de fuga? Você já tentou se aproximar de um pombo? Ele foge, mas não por medo e sim por movimento.

Tornamos-nos uma linha pura, cessando de representar o que quer que seja. As linhas de cartografia traçadas em fluxos de tráfego se misturam e nelas estamos também misturados (eu e o pombo e o carro), logo, “não estamos no mundo, tornamo-nos com o mundo(...)”(DELEUZE;GUATTARI,1997, p.220 – O Que é Filosofia?).

Este agenciamento coletivo transita pelas ruas cujos nomes têm pouca importância, apesar de que, quase sempre se atribui às ruas nomes com certa notoriedade. Isto faz destes pedaços de terra, no geral asfaltadas, demarcações cujos sentidos e regiões correspondem a propriedades de classes sociais distintas.

Sentidos são evocados e provocados numa espécie de resistência que eleva à última potência a invenção de modos de vida, a propagação e ocupação, além de modos de trânsito. Não se trata tão somente de dirigir com bons modos, e lá se vai e vem esta humilde máquina de guerra, em tempos nos quais dirigir é semelhante a guerrilhar no espaço urbano caótico das grandes metrópoles. Apesar de que, é necessário ressaltar que as máquinas de guerra não têm a guerra como objeto, mas sim o espaço liso e o nomadismo. Algumas espécies de pombos são nômades e migram nas épocas de escassez de alimentos e de procriação.

Não sei se seria má idéia procriarmos e propagarmos este estilo motorista-carro-pombo de se mover.

 

           

 

 

 

 


Posted at 09:07 pm by rfelipe
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May 5, 2006
devir-químico

A man on the MAM.

 

“(…) Hey Andy (Kaufman), did you hear about this one? Tell me, are you locked in the punch?
Hey Andy, are you goofing on Elvis? Hey baby, are we losing touch?
If you believed they put a man on the moon, man on the moon
If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool.”

(Man on the Moon – REM)

 

Que há potências etílicas, fluidas, e que estas movem gerações... quanto a isso não há dúvidas. Mas um movimento, onde isso nos leva? E se isso é leve como uma pluma, ou pesado como o plumbo (chumbo), isso nos eleva? Gravitações neutras e vibrações oceânicas permitem que um devir-químico agite moléculas e crie interstícios, que as separam de um corpo. Mas um corpo e seus afectos, do que isso é mesmo capaz? Spengers e Prigogine fizeram cair o último refúgio de sobriedade da antiga física moderna, afinal, a matéria é composta/decomposta e componente de caos. O mesmo caos dos singelos acontecimentos, do menor e mezzo-imperceptível, daquilo que foge. Moléculas que caoticamente se trombam, num plissar frenético, cujas dobras e desdobramentos agitam forças e criam campos em que se pode pensar, campos de possíveis, e planos de imanência. Andy Kaufman nunca contou uma piada sequer, aliás, nem se considerava um comediante. Ele costumava se descrever como um “song-and-dance-man” e é no domínio das idéias, mais do que no das anedotas, que este, às vezes Elvis Presley, às vezes mágico, noutras vezes faquir, espião, imigrante, robô... traçou um plano de imanência. Numa prática de anti-humor-dadaísta pelo meio de dobras, e seus desdobramentos... quantos rostos num só e imperceptível rosto? Perder um rosto e deixar um rastro, que daqui parte e se reparte em mil platôs e moléculas dispersas, uma dobra em meio a outras, e no meio de tantas outras – um outro. Imagine uma fotografia... agora coloque-a numa ampliação que excede aos limites e capacidades, em termos de qualidade da mesma. Eis uma explosão, um big-bang de pixels beirando à pirotecnia! E se um pixel é o menor elemento em um dispositivo de exibição, ao qual se é possível atribuir uma cor, façamos o seguinte:

 

Num encontro entre Joan Brossa e Roy Licheistein uma fagulha de amarelo em quadrinhos se encontra com a letra A du cinéma, e no final, no que dá? Eis um encontro, como tantos outros. Algo raro e ao mesmo tempo, tão comum. Acontece a toda hora, como é bem típico de um acontecimento, mas escapa à percepção, é imperceptível dentro de uma lógica da sensação. Se um se perde em Barcelona, sem um níquel no bolso, fazendo malabarismo com bolas e flores, e ao mesmo tempo, poesia e arte; o outro se enriquece explorando o máximo e o que excede em imagens banalizadas... estoura o Donald Duck, Mickey Mouse, Popeye the sailor man, e tantos outros, numa estética de quadrinhos perfurados por pontos de Bentham. Um flerta e escapa pela via de um Surrealismo, outro se apropria e foge pelos meandros da Pop Art. Afinal, as categorias, sempre elas, a afugentar os que nelas não cabem. O ideal seria o contrário de uma Escola, ou seja, um movimento... nada é mais inspirador e ao mesmo tempo tão arriscado. Porém a ausência de estabilidade, mesmo a estabilidade de vôo, tornou-se hoje démodé.

 

Tornar-se démodé, mesmo “num século favorecedor”. Um devir-demodé, pois às vezes, é necessário fugir até mesmo de uma linha que foge. Ou fugir numa linha de fuga, o contrário de nela colar e aguardar. Ou de esperar n(d)ela, segurança.

 

                                                  R.Felipe

 


Posted at 11:53 pm by rfelipe
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Apr 28, 2006
h.ands

*n

The masses against the classes
I'm tired of giving a reason
When the future is what we believe in

We love the winter
It brings us closer together

(Manic street preachers)

 

 

LKJHGF

KJHGLF

JLKHFG

N

 

Um fotograma e suas velocidades de exibição; na diferença entre o fotógrafo e o retratista, daí ao nascimento do cinema, e à afirmação de dois flancos numa mesma guerrilha, sem que o cinema assassinasse a fotografia, ou vice e versa. Eis uma aliança! Da fotografia medieval de Da Vinci ao retratista, e somos muitos, que no simples ato de fotografar, matamos o movimento, e aglutinamos claustrofobicamente a Vida, em uma paralisia. Um retrato 3x4, e o sorriso amarelo de insatisfação, tal qual uma Monalisa. “E mesmo a Monalisa envelhece”, ou se preferir, sem censura, no original do livro: “Wipe your ass with the Monalisa!”, ambas frases extraídas do potente Fight Club, ou quando o cinema mata a metáfora que um dia “o fora” compôs, em movimento,  com o livro, atrelado às forças do imaginário.  O lambe-lambe e o cavalinho de madeira, os retratos em preto-e-branco, posteriormente coloridos pelo retratista. Já o fotógrafo e a aventura de capturar um movimento e potencializá-lo em um outro fluxo. O fotógrafo e a difícil função de apreender e soltar, de abrir novos horizontes em uma fotografia. A potência de uma câmara clara ou a filosofia da caixa preta.

 

<

Inverter polaridades, eis mais uma das múltiplas facetas de um fotógrafo. Pois, de um negativo revelado em imagens, amplia-se a duração, engendram-se afectos, daqui a acolá, em um salto dervishe girante. De um negativo se produzem imagens antes capturadas em meio a lentes e flash. De um negativo se produz e reproduz, quantas cópias se quiser. E quando a vespa e a orquídea se encontram? Eis uma fotografia difícil de se tirar. Ou uma imagem difícil de se tirar de um pensamento. Um belo desafio aos experts da NatGeo. A vespa e a orquídea, um encontro, ou o contrário de uma metáfora. Então lanço ao ar minha granada:

 

- Como fotografar um acontecimento,ou se preferir, como filmá-lo?

 

 

E

Despir um armário, ou despedir-se de um armário. Despir/Despedir-se de um armário... de um só não, de vários. Armários há, aos montes, mas não em bandos, o que daria uma bela diferença. Não basta despir um armário, é preciso também despedir-se dele. Despir e despedir, um duplo movimento. Há classes de armários, mesmo que saibamos que as classes são apenas recortes enganosos e inexatos de uma massa. “All the masses against the classes!” Fábricas de armários, armários disciplinares, totais, individuais. Armários duros, de madeira de lei. Armários embutidos, mas onde mesmo? Na cabeça e pelo corpo afora. Não se esquecer também que pelo corpo aflora(m), moléculas afectivas que se revoltam, e desejo.

CB

.:Dançar. A velocidade de um rodopio dervishe. Sufis e o minimalismo girante:.

 

B

beijos.R.Felipe:. 

 

 


Posted at 07:30 pm by rfelipe
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Apr 21, 2006
no-mad......(ology)


Posted at 09:02 am by rfelipe
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.:no fundo, nu fundo:.

 

->Lá embaixo, bem fundo.

 

No meio das íntimas roupas de baixo, entre cuecas ou calcinhas. As que subterrâneas escondem o que mais se deseja ver, tocar, cheirar... e que por debaixo de outras vestes, vestem e cobrem as partes. Quase uma segunda pele, que pela estrada afora, aflora. Vestir e cobrir: O homem branco cobre o índio no instante mesmo em que se re-veste de ouro, prata, cobre e diamantes. É no “Descobrimento”, palavra generosa, que se esconde a invasão, palavra nesse caso truculenta, e se re-cobre o etnocídio, prática de desigualdade repetitiva e paralisante. Movimento caracterizado pelo poder hegemônico, majoritário, a sufocar a sutileza potente de um acontecimento. Se alguém aqui já se encontrava, no caso, os índios, esse alguém tem de perder a vida. Encontrar e perder, eterno jogo do gato e do rato, tal qual vestir e cobrir. Encontro sempre desigual de forças, mas que nem de longe se parece com um encontro que promove diferença. A desigualdade não garante a diferença. Tampouco, a igualdade seria o oposto da diferença, muito menos a anula. Talvez o contrário da igualdade seja a desigualdade, e só. Já o contrário da diferença...

 

 - Dá-me a chave de seu armário e eu te ensinarei a se vestir melhor.

 

“Como se vestir” é menos importante do que aprender a se despir, a se livrar das amarras tendenciosas. Dos ditames do que se convencionou chamar estilo, e que na realidade, merece outro nome: Padrão. Mas isso é o contrário de um estilo. Top Models, tal qual, dispositivos disciplinares. Modelos desfilam por aí... Onde termina uma passarela? Em alguns casos, dentro do armário. Noutros casos, aqui e acolá, sob a forma de um desejo que se paralisa frente à impossibilidade de um encontro, ou se potencializa sob novos modos de se vestir. Mas para se vestir, antes é necessário se despir. Tal qual, os ensinamentos do zen: “Esvazie a xícara!”. Muitos têm dificuldade em se despir, o que lembra a respiração avariada de um asmático. O problema do asmático não é aprender a apreender o ar, e sim a soltá-lo. É preciso se soltar, sair, evadir, fugir... são tantas, as ações sinônimas em uma diferença. Modos de agir, verbos de ação, ação que se des-verbaliza, pois escapa do campo da linguagem, e encontra um horizonte de linhas em planos de consistência. “Ah! A areia escaldante do deserto... sempre ela!”. Para atravessar um deserto os nômades cobrem-se de muitos panos. Nada de roupas, mas panos. É porque a temperatura no deserto oscila vertiginosamente... vai de um pólo positivo a um negativo sem se prender/perder em um grau-zero. O neutro cede espaço a um território de multiplicidade. Um deserto é o contrário de um território de escassez. Os tuaregues são mestres na arte de se despir. Verdadeiros strippers que se desterritorializam num movimento de linhas, e que assim se tornam com a areia escaldante do deserto. No excesso de panos que cobrem um tuaregue, se desvela sua nudez. Nudez em tom de areia, in-out, que se camufla, num jogo de encontrar e perder, e de vestir e cobrir, que se potencializa no ato de se despir. Não é mais um tuaregue, mas sim um bloco de areia, num devir-mineral.

 

As dançarinas de cabaré que hipnotizam os espectadores com seu jogo de pernas lançadas para o alto. E num piscar de olhos, entre um drink e outro, lá se foi mais uma peça de roupa. É que elas até se esforçam em vestirem-se iguais... mas é na maneira de se despir e de se descobrir que, de modo inusitado, um acontecimento leve e sutil traz à tona uma diferença. O despir-se de modo singular, quase um despedir-se, que se dá sob a potência de um desvelar. Nada a revelar, e o contrário de um mostruário ambulante de pernas vistosas. Uma dançarina de cabaré dos anos 1920 em nada se parece com uma vedete, ela não se mostra, ela torna-se dançarina, pelo duplo engodo de se apresentar tal qual uma dançarina, e operar micro-movimentos instituintes de diferença. É que, no mesmo instante em que uma dançarina de cabaré se despe, ela se veste, se reveste de virtualidades para novamente de despir. Os espectadores também despem-vestem as dançarinas. E no palco, sob luzes opacas, um bando de dançarinas se despem-vestem num duplo ziguezaguear hipnotizante e quase sem fim.

 

R.Felipe:.


Posted at 08:47 am by rfelipe
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Mar 20, 2006
Blue Moby Dick - Pollock-Pororoca


Posted at 12:31 pm by rfelipe
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Pollock

Jackson-Pororoca-Pollock.

Os rios têm um quê de movimento, e disso Heráclito já sabia. Os peixes o sabem. Mas é difícil falar de peixes, pois estes, em sua maioria possuem simetria bi-lateral. Falar com peixes então... Difícil também é agarrar um peixe, pois suas escamas permitem um deslizar em fuga. Num dado instante você acha que viu um peixe, mas seus olhos capturaram apenas a linha de corte de um peixe n’água. Velocidades de um cardume, a pororoca com seus peixes desviantes. Um bando que foge a nado... na contramão... (a palavra pororoca vem de “poroc-poroc” e significa destruidor, grande estrondo no dialeto dos índios no baixo do Rio Amazonas). Um movimento que rompe com o silêncio da floresta (se é que existe mesmo um silêncio na floresta, e se ele existe em muito se “assemelha” a J.Cage e sua composição 4’33”). O rio e os peixes numa espécie de agenciamento que compõe com as linhas de margem, as linhas de fora, o “poroc-poroc”... a sinfonia, a onda que aqui é mais do que simplesmente sonora. É incrível a velocidade de uma pororoca e sua altura (física e sonora), que os peixes e a água atingem... num dado momento em que já não se sabe o que são os peixes ou a água. O caos como orientação ou configuração. Configurar o caos e sua potência, sua tessitura... as margens de um rio e suas linhas que já não são mais só água, mas peixes e água e lama... e certamente também um punhado de grama, do tipo que corre entre o rio e a floresta. Um terceiro e quarto elementos, a lama e a grama da margem permitem uma coloração outra, aliás são muitas as cores em uma pororoca. As linhas de uma pororoca ou as linhas de Blue Moby Dick de J.Pollock e seu action paiting que pode ser “visto” em um museu no Japão. “Pollock-Pollock” ou destruidor, grande estrondo no dialeto dos críticos de arte, e na vida. Uma onda, um tsunami. Arte de uma embriaguez tão veloz quanto o Moby Dick de H.Melville e suas linhas móveis. J.Pollock e sua luta contra o muro branco da tela vazia. Tele-tela, ou tela-a-tela que captura o artista e o não-artista em J.Pollock. A caçada à baleia que acaba mal em Moby Dick. Mover e morrer, ou renascer....nascendo de novo, ou fazer nascer o novo “É preciso falar da criação como traçando um caminho entre impossibilidades”(G.Deleuze). Partir, evadir, evacuar, dividir, e ao retornar tornar-se irreconhecível. Um corpo pode ser encontrado no Rio semanalmente, nas terças e quartas... mas o que pode um corpo? Um corpo esfacelado. De funcionamento avariado.  Com uma parte aqui, outra no Rio, outra acolá. Sabe-se lá, micro-partículas de uma meia dúzia de blocos de cinco a seis moléculas revolucionárias... eis no que deu tal travessia. Esquartejado, mas não do mesmo modo nem pelos mesmos motivos de um tal alferes de cavalaria. Nem morto, apenas aos pedaços. Um pé lá outro cá, eis a dinâmica de um corpo, eis suas distâncias e proximidades. Uma dobra-Rio e o passo errante e estrangeiro. O olhar curioso de olhos cansados que se fecham no vai-e-vem, quase um acalanto, um ninar do ônibus de viagens. Meu armário se dobra em três: BH-Rio-UERJ. Nos vemos em breve...abraços e beijos pororocantes-provocantes. R.Felipe.


Posted at 12:16 pm by rfelipe
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Feb 16, 2006
mezzo-amore.

Intermezzo: amor.

 

 

“O we will know, won't we?
The stars will explode in the sky
O but they don't, do they?
Stars have their moment and then they die”

 

 (Nick Cave – Are you the one that I’ve been waiting for?)

 

 

 

A astronomia, sempre ela, a ciência que estuda o movimento dos astros, para quando estes se encontram na mais alta velocidade, ou até mesmo parados, em suas órbitas desmedidas de inércia pura.  Os astros nos guiam, desde sempre. São estes os nossos modelos: o Sol, a Lua; Marte, Vênus; pai, mãe; e hoje, mais do que nunca, temos celebridades aos montes nos ensinando a viver, a amar. Temos acesso instantâneo às vinte-e-quatro horas do dia-a-dia de insossas celebridades quase-imediatas de um Big Brother Global, (acreditava-se antes que o Big Brother nos vigiava através da tele-tela... hoje quem duvida que somos nós que o vigiamos afoitos por movimentos quaisquer... numa total e patética inversão de papéis.).  Nossos modelos estão por aí e se movem sorrateiros sem necessidade de passarela. São magros anoréxicos e, no entanto, fortes halterofilistas que levantam o pesado estandarte da padronização estética do belo corpo perfeito (o corpo pleno).  Nas livrarias pipocam manuais, best-sellers, e uma multidão se arrasta e ainda suplica ansiosa: “Dêem-nos as respostas! -  Somos pedintes no fim de feira, nos contentamos com os bagaços!”. As grandes tragédias shakesperianas hoje nada valem... é que não há mais tempo, ou, sobra tempo demais. Uma questão de duração! E nesse planeta que habitamos e que num só e mesmo golpe nos habita, quem se atreve a falar de amor? Falar só, basta? Explicar? Perguntas há aos montes... respostas, no entanto... há silêncio, a verdadeira trilha sonora de um filme, já dizia Michelangelo Antonioni. Este cineasta, mestre na manipulação dos tempos em cinema, e da estetização do desencontro humano na grande tela. O quanto nos inspira! O cinema funciona, e isto sabemos bem, tratar-se-ia do divã do pobre, como diria Guattari?

 

Como pedintes no fim de feira deliciamos-nos com os bagaços. Queremos modelos, mas estes indubitavelmente sempre falham. É preciso falar do amor como de um fracasso, que exige de nós uma experimentação às cegas. É questão de tato, de choque de corpos. A pergunta espinosana: “O que pode um corpo? De que afectos é capaz?” está longe de uma resposta. Mas em sua potência já é capaz de nos arrancar do confortável habitat a que nos acomodamos, e ansiosos estamos, a aguardar o chamado, com o bilhete de senha na mão. Não seremos chamados. É preciso tomar a iniciativa e se atirar. Antes um modo de existência a um modelo. Antes modos de amar a modelos. Sejamos criativos e sigamos sob o signo do desamparo. Não há mapas, a não ser que os construamos. E a pergunta que fica é a mesma que foge: “Como quebrar até mesmo o nosso amor para nos tornamos, enfim, capazes de amar? Como devir imperceptível?”(DELEUZE; PARNET, 1998, p. 59)*

 

 

 

 

 

 

                                                                                           R.Felipe.


* DELEUZE, Gilles; PARNET, Claire. Diálogos. Trad. Eloísa Araújo Ribeiro. São Paulo, Editora Escuta, 1998.


Posted at 09:01 am by rfelipe
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Feb 1, 2006
Tr.aço.

...../


Posted at 04:57 am by rfelipe
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